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O MITO DO RIO SECO “A sua nascente é em uma pedreira ali proxima, e em todos os mezes de Junho secca inteiramente; - assim se conserva até ás primeiras chuvas; e logo depois destas torna a arrebentar a agua, mas como! Trazendo lixo - palhas - e até propriamente estrume; - nasce assim por dous ou tres dias, e depois continua muito limpa e clara até o Junho seguinte, que torna a seccar!” . VELLOSO D’ ANDRADE, José Sérgio, ‘Memoria sobre Chafarizes, Bicas, Fontes e Poços Públicos de Lisboa, Belém, e muitos logares do termo’, Lisboa, Imprensa Silviana, 1851.
O MITO DO RIO SECO “A sua nascente é em uma pedreira ali proxima, e em todos os mezes de Junho secca inteiramente; - assim se conserva até ás primeiras chuvas; e logo depois destas torna a arrebentar a agua, mas como! Trazendo lixo - palhas - e até propriamente estrume; - nasce assim por dous ou tres dias, e depois continua muito limpa e clara até o Junho seguinte, que torna a seccar!” . VELLOSO D’ ANDRADE, José Sérgio, ‘Memoria sobre Chafarizes, Bicas, Fontes e Poços Públicos de Lisboa, Belém, e muitos logares do termo’, Lisboa, Imprensa Silviana, 1851.











ÍNDICE PROJETO
MENÇÃO HONROSA
A EVIDÊNCIA DO NATURAL
Universidade de Lisboa -
Faculdade de Arquitectura

A propósito do Parque Natural do Rio Seco
Propomo-nos Ver, na cidade e no território, a manifestação dos seus sistemas naturais. Ver, porque estão lá, à vista de todos, apesar de passarem despercebidos e, muitas vezes, ignorados. Ver, “para redescobrir - como Siza escreveu - a singularidade das coisas evidentes.”1

Nas cartografias mais antigas, é possível distinguir conjuntos de finas linhas serpenteantes, de entre as quais surge a denominação Rio Seco. Encanado e coberto por vários estratos de asfalto, é sugerido através da presença enigmática em nomes de ruas e largos, assim como dos mitos que contam os locais. Junto da foz, por baixo da Cordoaria Nacional, comprova-se (e cheira-se) a sua existência no túnel de pedra que o faz dissolver no Tejo.

A revelação do Rio Seco constitui a premissa para compreender e repensar todo o seu território de influência. Suporte à fruição do sistema natural, o vale assume-se na qualidade de lugar privilegiado na articulação entre o Parque de Monsanto e a margem ribeirinha. Propõe-se, assim, a criação de um Parque Natural, integrando e completando o corredor iniciado por Gonçalo Ribeiro Telles.

Através de uma leitura crítica e selectiva da realidade, procura-se num troço da encosta poente do vale do Rio Seco, marcada por vestígios de um passado em que o rio acompanhou o desmonte das paredes de calcário, sugestões que desencadeiem uma construção cultural - portanto arquitectónica - em torno deste lugar.

Com o rio emerge o imaginário da água. Os banhos, à semelhança dos que se faziam junto da ribeira e nos tanques, ocupam os vazios escavados nas pedreiras. A recuperação dos caminhos que ligavam as pedreiras ao topo dos Fornos de Cal, enquadra os novos espaços de água. Activa-se a memória e integra-se no Parque a dimensão da História.

Enigmático e praticamente invisível em toda a sua extensão, o Rio Seco é sugerido, pontualmente, por espaços que atribuem ao curso de água significado arquitectónico. A partir de um primeiro arco multiplicam-se as passagens. A ponte sobre o rio transforma-se na ponte sobre o Parque, no ex-líbris da transição entre este e a cidade.

No redesenho do vale, descaracterizado pelo excesso de construção, propõe-se erradicar o espaço edificado, definindo o limite entre este e a cidade apenas com ‘espaço geológico’. A materialização deste ‘limite geológico habitado’ acolhe na ambiguidade da sua espessura um lugar designado ao imponderável, ao mesmo tempo que procura celebrar a continuidade das encostas de calcário.

Os projectos que formam o Parque, e que dele tomam forma, surgem da constatação de algo que sempre existiu. São como que um convite a ver a cidade e o território a partir da evidência da sua dimensão natural.

1. GREGOTTI, Vittorio, ‘O outro’, prefácio de ‘Imaginar a Evidência’, p. 8