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IMAGEM 1 SANTA MARIA SCALA COELI Consolidar um mosteiro cartusiano situado na cidade de Évora – a única cartuxa em funcionamento em Portugal – é o propósito deste trabalho, cuja estrutura originária do século XVI se encontra incompleta e degradada, em particular na sua ala sul onde se encontra o seu principal acesso, através da redefinição do percurso e do programa que lhe está associado. O completamento desta área considera-se fundamental tanto para o cabal reconhecimento da unidade do conjunto, como também da intenção na qual se traduz a sua génese, permitindo reflectir sobre um momento tão especial e decisivo da vida e arquitectura cartusianas: o processo de entrada.
IMAGEM 1 SANTA MARIA SCALA COELI Consolidar um mosteiro cartusiano situado na cidade de Évora – a única cartuxa em funcionamento em Portugal – é o propósito deste trabalho, cuja estrutura originária do século XVI se encontra incompleta e degradada, em particular na sua ala sul onde se encontra o seu principal acesso, através da redefinição do percurso e do programa que lhe está associado. O completamento desta área considera-se fundamental tanto para o cabal reconhecimento da unidade do conjunto, como também da intenção na qual se traduz a sua génese, permitindo reflectir sobre um momento tão especial e decisivo da vida e arquitectura cartusianas: o processo de entrada.

IMAGEM 2 Entre pequenas colinas do Alentejo, implantou-se o deserto. Santa Maria Scala Coeli emergiu protegido, de um lado, pelo cabeço granítico que compõe o Alto de São Bento de Cástris, e de outro, pela colina onde se formou a malha urbana eborense. A vista directa da cidade que a partir do pátio da entrada se acerca não concorda com a regra de isolamento da comunidade cartusiana, sendo por isso essencial trancar a ala sul do mosteiro. Por sua vez, o percurso, desde o começo da alameda até ao claustro maior constitui um perfeito sistema de comunicação, de curso lento e prolongado entre o exterior e o interior do mosteiro através do qual se desenha uma transição moderada e, sobretudo, indirecta entre o universo civil e o deserto cartusiano. O espaço entre a portaria e a zona do cenóbio apresenta, actualmente, uma aparente falha. Para este hiato há que encontrar uma solução.
IMAGEM 2 Entre pequenas colinas do Alentejo, implantou-se o deserto. Santa Maria Scala Coeli emergiu protegido, de um lado, pelo cabeço granítico que compõe o Alto de São Bento de Cástris, e de outro, pela colina onde se formou a malha urbana eborense. A vista directa da cidade que a partir do pátio da entrada se acerca não concorda com a regra de isolamento da comunidade cartusiana, sendo por isso essencial trancar a ala sul do mosteiro. Por sua vez, o percurso, desde o começo da alameda até ao claustro maior constitui um perfeito sistema de comunicação, de curso lento e prolongado entre o exterior e o interior do mosteiro através do qual se desenha uma transição moderada e, sobretudo, indirecta entre o universo civil e o deserto cartusiano. O espaço entre a portaria e a zona do cenóbio apresenta, actualmente, uma aparente falha. Para este hiato há que encontrar uma solução.

IMAGEM 3 A entrada cria o espaço, está na sua génese, uma vez que surge a partir dela. No contexto do espaço cartusiano, o episódio da entrada eleva o seu sentido, por designar um momento raro e, quase sempre, único. A importância da encenação de uma transição entre o mundo secular e a vida em clausura para a construção do espírito do sítio cartusiano é amplamente demonstrada através dos percursos de entrada em diversos conjuntos monásticos. Mediante uma cuidada análise constatou-se a existência de grupos distintos na forma de construir esta transição. Em suma, na maioria das cartuxas podem observar-se transições indirectas e prolongadas, capazes de tardar o passo e de dar significado à passagem para a clausura - características espaciais que São Bruno, fundador desta ordem, considerava primordiais para a implantação do eremitério.
IMAGEM 3 A entrada cria o espaço, está na sua génese, uma vez que surge a partir dela. No contexto do espaço cartusiano, o episódio da entrada eleva o seu sentido, por designar um momento raro e, quase sempre, único. A importância da encenação de uma transição entre o mundo secular e a vida em clausura para a construção do espírito do sítio cartusiano é amplamente demonstrada através dos percursos de entrada em diversos conjuntos monásticos. Mediante uma cuidada análise constatou-se a existência de grupos distintos na forma de construir esta transição. Em suma, na maioria das cartuxas podem observar-se transições indirectas e prolongadas, capazes de tardar o passo e de dar significado à passagem para a clausura - características espaciais que São Bruno, fundador desta ordem, considerava primordiais para a implantação do eremitério.

IMAGEM 4 Através do estudo da evolução morfológica do conjunto edificado do Alentejo pode comprovar-se que o percurso entre a portaria e o cenóbio também já fez parte do sistema contínuo indirecto, de curso lento e prolongado, que caracteriza as restantes transições do mosteiro e de outras cartuxas.
IMAGEM 4 Através do estudo da evolução morfológica do conjunto edificado do Alentejo pode comprovar-se que o percurso entre a portaria e o cenóbio também já fez parte do sistema contínuo indirecto, de curso lento e prolongado, que caracteriza as restantes transições do mosteiro e de outras cartuxas.

IMAGEM 5 A passagem do arco do aqueduto assinala também a entrada, não num espaço interior, mas no espaço interno que é o conjunto edificado cartusiano. A igreja impõe-se constantemente na paisagem desde o início do percurso e, pelo crescente alcance da fachada à medida que o entrante se aproxima, reclama a proximidade do espaço sagrado cartusiano. Desde logo se percebeu que a entrada dispunha de pouca profundidade, sendo por isso essencial a reposição da devida distância. A partir da descoberta da cota primitiva da cartuxa de Évora, apresenta-se, em profunda continuidade com a sua história e com o lugar onde se insere, uma proposta de redefinição do processo de entrada no mosteiro através da reposição da cota antiga do pátio da entrada. Propõe-se que a elevação impeça o acesso directo ao pátio de entrada e que o vestíbulo proposto duplique a função da portaria, tal como fazem as diversas antecâmaras cartusianas e como sugeriu, outrora, o pequeno espaço que antecedeu a portaria na época de Eugénio de Almeida.
IMAGEM 5 A passagem do arco do aqueduto assinala também a entrada, não num espaço interior, mas no espaço interno que é o conjunto edificado cartusiano. A igreja impõe-se constantemente na paisagem desde o início do percurso e, pelo crescente alcance da fachada à medida que o entrante se aproxima, reclama a proximidade do espaço sagrado cartusiano. Desde logo se percebeu que a entrada dispunha de pouca profundidade, sendo por isso essencial a reposição da devida distância. A partir da descoberta da cota primitiva da cartuxa de Évora, apresenta-se, em profunda continuidade com a sua história e com o lugar onde se insere, uma proposta de redefinição do processo de entrada no mosteiro através da reposição da cota antiga do pátio da entrada. Propõe-se que a elevação impeça o acesso directo ao pátio de entrada e que o vestíbulo proposto duplique a função da portaria, tal como fazem as diversas antecâmaras cartusianas e como sugeriu, outrora, o pequeno espaço que antecedeu a portaria na época de Eugénio de Almeida.

IMAGEM 6 A passagem do arco do aqueduto assinala também a entrada, não num espaço interior, mas no espaço interno que é o conjunto edificado cartusiano. A igreja impõe-se constantemente na paisagem desde o início do percurso e, pelo crescente alcance da fachada à medida que o entrante se aproxima, reclama a proximidade do espaço sagrado cartusiano. Desde logo se percebeu que a entrada dispunha de pouca profundidade, sendo por isso essencial a reposição da devida distância. Torna-se então necessário, e de acordo com as intenções que caracterizam a entrada de uma cartuxa, evitar a vista integral da igreja e, se possível, o seu acesso tão repentino. A hipótese aqui veiculada tem como base a recuperação da cota antiga do pátio de entrada – fiel à intenção do projecto original mas distinto na sua configuração. Ao invés da proposta de uma escadaria para vencer esta diferença de cota, propõe-se que a elevação impeça o acesso directo ao pátio de entrada e, por sua vez, à escadaria que dá acesso ao nártex exterior e à igreja. Este óbice, além de significar a obrigação de paragem, é também representativo da relação que os monges cartuxos têm com quem deles se acerca. Do espaço da portaria nasce um vestíbulo que abriga este momento de pausa, duplicando a função da portaria, tal como fazem as diversas antecâmaras cartusianas ao longo de todo o edifício, e como sugeriu, outrora, o pequeno espaço que antecedeu a portaria na época de Eugénio de Almeida. Propõe-se ainda uma abertura neste vestíbulo, próxima da escala do homem, que faculta o contacto visual, ainda que controlado, com o nártex exterior da igreja – e não com a totalidade da sua fachada. Vê-se mas não se vê tudo, está aberto mas não se passa. Surge uma clara tensão no encontro do mundo secular com o cartusiano.
IMAGEM 6 A passagem do arco do aqueduto assinala também a entrada, não num espaço interior, mas no espaço interno que é o conjunto edificado cartusiano. A igreja impõe-se constantemente na paisagem desde o início do percurso e, pelo crescente alcance da fachada à medida que o entrante se aproxima, reclama a proximidade do espaço sagrado cartusiano. Desde logo se percebeu que a entrada dispunha de pouca profundidade, sendo por isso essencial a reposição da devida distância. Torna-se então necessário, e de acordo com as intenções que caracterizam a entrada de uma cartuxa, evitar a vista integral da igreja e, se possível, o seu acesso tão repentino. A hipótese aqui veiculada tem como base a recuperação da cota antiga do pátio de entrada – fiel à intenção do projecto original mas distinto na sua configuração. Ao invés da proposta de uma escadaria para vencer esta diferença de cota, propõe-se que a elevação impeça o acesso directo ao pátio de entrada e, por sua vez, à escadaria que dá acesso ao nártex exterior e à igreja. Este óbice, além de significar a obrigação de paragem, é também representativo da relação que os monges cartuxos têm com quem deles se acerca. Do espaço da portaria nasce um vestíbulo que abriga este momento de pausa, duplicando a função da portaria, tal como fazem as diversas antecâmaras cartusianas ao longo de todo o edifício, e como sugeriu, outrora, o pequeno espaço que antecedeu a portaria na época de Eugénio de Almeida. Propõe-se ainda uma abertura neste vestíbulo, próxima da escala do homem, que faculta o contacto visual, ainda que controlado, com o nártex exterior da igreja – e não com a totalidade da sua fachada. Vê-se mas não se vê tudo, está aberto mas não se passa. Surge uma clara tensão no encontro do mundo secular com o cartusiano.

IMAGEM 7 Do vestíbulo, a transição até ao espaço da recepção faz-se tangente ao pátio da entrada, ao longo de um extenso corredor, desfazendo-se numa suave rampa. A opção pelo percurso perpendicular em relação à aproximação axial ao edifício sublinha a inutilização do eixo central – em virtude das passagens laterais, que tornam misteriosos, introvertidos e intensos, os percursos no interior da cartuxa. Antes do espaço de conversa com o procurador, propõe-se ainda um vão que se lança em direcção ao recinto exterior que antecede a portaria, permitindo voltar atrás através do olhar, repensar a entrada e confirmar a decisão. A confirmação do desejo de entrar no ambiente cartusiano diz respeito ao visitante, que deve ponderar se o que o leva até ali é tão forte quanto o que ali se vive – confirmando dessa forma que o motivo que ali o leva vale a pena interromper a clausura – mas diz respeito, sobretudo, aos noviços, que ali chegaram com vontade de se isolar para sempre com Deus e aos quais é sugerido que repensem as suas intenções. O espaço da recepção surge com grande ímpeto no processo de entrada e, por isso, devem as suas dimensões acompanhar o seu carácter. A transição para o pátio de entrada faz-se através de uma passagem em sifão, terminando num espaço coberto que devolve o entrante ao exterior e revela, na íntegra, a fachada da igreja. A aproximação oblíqua relativamente ao plano da fachada engrandece a perspectiva do edifício e, por sua vez, da acção.
IMAGEM 7 Do vestíbulo, a transição até ao espaço da recepção faz-se tangente ao pátio da entrada, ao longo de um extenso corredor, desfazendo-se numa suave rampa. A opção pelo percurso perpendicular em relação à aproximação axial ao edifício sublinha a inutilização do eixo central – em virtude das passagens laterais, que tornam misteriosos, introvertidos e intensos, os percursos no interior da cartuxa. Antes do espaço de conversa com o procurador, propõe-se ainda um vão que se lança em direcção ao recinto exterior que antecede a portaria, permitindo voltar atrás através do olhar, repensar a entrada e confirmar a decisão. A confirmação do desejo de entrar no ambiente cartusiano diz respeito ao visitante, que deve ponderar se o que o leva até ali é tão forte quanto o que ali se vive – confirmando dessa forma que o motivo que ali o leva vale a pena interromper a clausura – mas diz respeito, sobretudo, aos noviços, que ali chegaram com vontade de se isolar para sempre com Deus e aos quais é sugerido que repensem as suas intenções. O espaço da recepção surge com grande ímpeto no processo de entrada e, por isso, devem as suas dimensões acompanhar o seu carácter. A transição para o pátio de entrada faz-se através de uma passagem em sifão, terminando num espaço coberto que devolve o entrante ao exterior e revela, na íntegra, a fachada da igreja. A aproximação oblíqua relativamente ao plano da fachada engrandece a perspectiva do edifício e, por sua vez, da acção.

IMAGEM 8 Em suma, a estratégia proposta para a problemática do processo de entrada no mosteiro de Santa Maria Scala Coeli consiste no desenho de um percurso indirecto, que confere à transição uma sensação contraditória de profundidade, tornando-a assim indirecta, lenta e prolongada – características essenciais na configuração do acesso a uma casa cartusiana.
IMAGEM 8 Em suma, a estratégia proposta para a problemática do processo de entrada no mosteiro de Santa Maria Scala Coeli consiste no desenho de um percurso indirecto, que confere à transição uma sensação contraditória de profundidade, tornando-a assim indirecta, lenta e prolongada – características essenciais na configuração do acesso a uma casa cartusiana.




PROJECTINDEX
HONOURABLE MENTION
O MOSTEIRO CARTUSIANO DE SANTA MARIA SCALA COELI
Universidade de Évora

Do Processo de Entrada
About the process of entrance.

The importance of staging a transition between the secular world and life cloistered in the context of Carthusian architecture is amply demonstrated through the input paths of the most important collections, as well as many of those represented in the pictures in the book Maisons de l’Ordre des Chartreux – Vues et Notices, one of the early twentieth century work that includes prints of almost all of the 282 Carthusians monasteries spread across almost all of Europe.
In most of Carthusian the transitions that can be observed are indirect and long, able to delay the step and give meaning to the passage to the life cloistered - spatial characteristics that St. Bruno, founder of the Carthusian Order, considered essential for the implementation of his hermitage. From a careful analysis of this transition, looking through the Carthusian in general, and its morphological evolution, in the Charterhouse of Évora in particular, encouraged by the data discovery here analyzed and interpreted for the first time - it is presented in continuity with its history and having premised on the consolidation of the entry process, a proposal for a redefinition of the monastic structure of Santa Maria Scala Coeli. This original structure of the sixteenth century is incomplete and degraded, particularly in the south wing where it is the main access, and where is fundamental the completion of this area to the full recognition of the unity of the whole and to understand the intent in which translates its genesis.